sexta-feira, 13 de maio de 2016

Brasil, há o que Temer?





Brasil, há o que Temer?

You take a mortal man,
And put him in control.
Watch him become a god,
Watch people’s heads a’roll.
- Megadeth, Symphony of Destruction

Meus heróis morreram de overdose,
Meus inimigos estão no poder!
- Cazuza, Ideologia

Sexta-feira 13! As bruxas estão soltas no Brasil, principalmente no Congresso Nacional, depois que o “mordomo de filme de terror”[1] assumiu a presidência da República interinamente. Como se era de esperar, a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff no senado foi um verdadeiro “massacre da serra elétrica”. Claro que todo golpe tem um preço, e o 'Jason' não vai deixar de vir cobrar do “presidente” Michel Temer e de todos os brasileiros. O Supremo Tribunal Federal junto com o Congresso Nacional montaram uma farsa jurídica para retirar através de um golpe branco a presidente Dilma. Golpe branco é quando se retira um presidente legitimamente eleito através de manobras legais, mas sem o devido respaldo. Isso significa que a nossa democracia é falha, pois permite brechas legais para se depor um presidente da República. Em artigo passado, avisava que estávamos diante de um golpe patológico. O patógeno agora se torna cada vez mais claro: é o fascismo. O fascismo está entre nós!

O ódio que ronda a população em geral nos últimos meses, desde a deflagração do processo de impeachment, é um escândalo. Em grande parte vindo de uma classe média que não aceita os programas sociais que permitiram aos pobres ascenderem a uma posição social melhor e a consumirem o que antes era exclusivo das classes mais abastadas.

Conjuntamente com as palavras de ordem anticorrupção e antigoverno, os slogans entoados por esses “bons cidadãos” não se destacam por seu progressismo: recriminações contra os impostos, recusa de políticas sociais, ataques contra o ensino público – qualificado de “fábrica de idiotas” ou de bastião marxista –, ataques contra eleitores mal informados e manipulados pelo PT, caricaturas racistas, para não falar dos chamados à intervenção militar...[2]

Uma classe média moralista que acha que tem mais direitos que os demais, mas que não passa de capacho da elite fascista que ronda o país, interessada apenas em manter seus privilégios perdidos com o governo do PT. Essas duas classes unidas marginalizam os programas sociais, taxando-os de ilusórios ou mantedores de “vagabundos” que não querem trabalhar. Acusam o governo Dilma do aumento de desemprego, mas obviamente aprovam as medidas propostas pelo governo Temer que será mexer na legislação trabalhista e na previdência. Quando se desregulamenta o trabalho, se permite que as empresas contratem sem grande ônus para si. Isso permite que mais pessoas sejam contratadas, o desemprego abaixa, no entanto, as garantias trabalhistas reduzem. Ou seja, temos mais trabalhos, mas sem nenhuma garantia e segurança trabalhista. Isso nada mais é do que maquiar o problema ao invés de resolvê-lo.

Pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não ser competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”.[3]

A democracia brasileira apresentou uma grande fragilidade quando permitiu que uma vontade individual como a do presidente da Câmara dos Deputados em 2015, o deputado Eduardo Cunha, aceitasse a abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. No jogo pelo poder, se encontrou uma maneira de dar o golpe, fazendo-se para isso uma aliança com uma direita insatisfeita com os resultados das urnas em 2014, uma oligarquia insatisfeita com a retirada de seus privilégios, a oposição golpista e parlamentares corruptos. Dessa maneira, se permitiu o afastamento de uma presidente legitimamente eleita, utilizando-se para isso de manobras legais, acarretando na posse de alguém que não foi eleito senão como vice presidente da República. Há mais de dois mil anos Platão já alertava na sua obra “A República” para a possibilidade da democracia vir a consolidar um tirano no poder, como se pode verificar no diálogo entre Sócrates e Gláucon:

- Porventura não é a ambição daquilo que a democracia assinala como o bem supremo a causa de sua dissolução?
- Que bem é esse que dizes?
- A liberdade – respondi eu [Sócrates] –. É o que ouvirás proclamar num Estado democrático como sendo a coisa mais bela que possui, e que, por isso, quem é livre de nascimento só nesse deve morar.
- Realmente, ouve-se muito amiúde essa palavra.
- Ora pois – prossegui – como eu ia dizendo há pouco, a ambição desse bem e a negligência do resto é que faz mudar esta forma de governo e abre caminho à necessidade da tirania?
- Como?
Quando, ao que me parece, a um Estado democrático, com sede de liberdade, se deparam maus escanções no governo e quando se embriaga com esse vinho sem mistura para além do que convém, então põe-se a castigar os governantes, a não ser que sejam extremamente dóceis e lhe proporcionem grande liberdade, acusando-os de miseráveis e oligarcas.
- É isso que fazem, realmente.[4]

Temer deu o golpe na democracia! Dilma, desgastada pela crise econômica que devasta o mundo, a América Latina como um todo e não apenas o Brasil, também sofre com a misoginia de pessoas conservadoras e machistas que não aceitaram e não aceitam serem governados por uma mulher. Estamos no século XXI e ainda nos confrontamos com esse tipo de posicionamento em um país ocidental. Um total retrocesso! Principalmente quando tentam enquadrar Dilma em um perfil simplista cunhado pela comunidade machista. Não, Dilma não é “recatada e do lar”[5]. Dilma saiu do Planalto aos gritos de "Dilma guerreira da nação brasileira"! A misoginia e outros tipos de preconceitos ficaram claros em não ter uma única mulher como ministra de Temer e na extinção e/ou fusão de diversos ministérios[6], como o "Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos" e o "Ministério da Cultura", o que nos faz lembrar a célebre frase atribuída a Goebbels[7] "Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola". Eis o governo Temer!
Ao contrário de Dilma Rousseff que foi, com esforço, eleita presidente, Temer foi colocado presidente por uma elite manipuladora e argentária. Agora ele terá que pagar o preço às oligarquias existentes no país pelo benefício do golpe. Essa dívida terá de ser paga com sangue, não dele, mas da população brasileira. As bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia já cobravam, antes da posse, o seu quinhão pelos votos a favor do impeachment[8]. Mudança na demarcação das terras indígenas para benefício do agronegócio e no Estatuto do desarmamento são apenas algumas das mudanças exigidas. O PSDB já estuda uma adesão total ao governo Temer[9], tendo inclusive o (eterno) candidato a presidência José Serra cotado para ministro das relações exteriores[10]. Serra inclusive se encontra na Lista de Furnas junto com vários colegas seus do PSDB, mas isso é outra história...[11]
A elite oligarca se delicia dizendo: “Pegamos um homem mortal e o colocamos no poder. Olharemos ele se envaidecer como um deus e a cabeça das pessoas do povo rolarem pelo chão. Assim como o flautista que conduzia ratos pelas ruas, nós controlaremos todos com a nossa marionete-presidente, e faremos todos dançarem a sinfonia da destruição[12].

Fim da democracia!



[1]Assim o senador Renan Calheiros se refere a Michel Temer em nota. Ver: http://www.valor.com.br/politica/4361792/renan-diz-senadores-que-temer-e-mordomo-de-filme-de-terror

[2]DELCOURT, L. “Movimento contra a corrupção ou golpe de Estado disfarçado?”. Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=2083 1/. Acesso em: 12 de maio de 2016.

[3] ECO, Umberto. “O fascismo eterno”. In: ECO, Umberto. Cinco Escritos Morais. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998, p. 41.

[4] PLATÃO. República, 562b-d. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação CalousteGulbenkian,2001. Grifos meus.

[5] Assim foi retratada a esposa de Michel Temer, Marcela Temer, pela revista VEJA. Ver: LINHARES, J. "Marcela Temer: bela, recatada e do lar". Veja. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar. Acesso em: 12 de abril de 2016.

[6] Ver: "Ministério da Cultura e outras pastas são extintas em reforma ministerial de Temer". ZHPolítica. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/politica/noticia/2016/05/ministerio-da-cultura-e-outras-pastas-sao-extintas-em-reforma-ministerial-de-temer-5800482.html. Acesso em: 13 de abril de 2016. Para a edição do Diário Oficial, ver: http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=12/05/2016
&jornal=1000&pagina=3&totalArquivos=10

[7] Joseph Goebbels foi ministro da propaganda de Hitler na Alemanha Nazista.

[8]HUPSEL FILHO, V.; GADELHA, I. “Bancadas da Bala, da Bíblia e do Boi pressionam Temer”. Estadão. Disponível em: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bancadasdabaladabibliaedoboipressionamtemer,
10000027834. Acesso em: 25 de abril de 2016.

[9] BOMBIG, A.; VENCESLAU, P.; GADELHA, I.; BRITO, R.; NOSSA, L. “PSDB já negocia adesão total a governoTemer”. Estadão. Disponível em: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,psdbjanegociaadesaototal
agovernotemer,10000028274. Acesso em: 27 de abril de 2016.

[10] “Os ministros de Temer”. G1. Acesso em: 12 de abril de 2016.

[11] A “Lista de Furnas” é um documento sobre um suposto esquema de caixa dois nas eleições de 2002, cuja autenticidade está sob investigação da Polícia Federal, é essencialmente uma lista tucana. Ver: AMORIM, P.H. “Lista de Furnas é a Lista dos Golpistas”. Conversa Afiada. Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/listadefurnasealistadosgolpistas. Acesso em: 02 de maio de 2016.

[12] A tradução da música "Symphony of Destruction" do Megadeth não é literal, mas adaptada.

Um comentário:

Breno Lucano disse...

A partir dos anos 90 o Brasil, de forma cada vez mais eficaz, é tomada por dilemas morais, em substituição por dilemas econômicos. E isso foi evidente no Caso Dilma. O curioso é o surgimento de um movimento que se afirma moral que contrapõe outro que também se afirma moral: de um lado a direita fascista; de outro, a esquerda revolucionária.

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