terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Fragmentos de um Frankenstein Amoroso




Fragmentos de um Frankenstein Amoroso

Em seu Fragmentos de um Discurso Amoroso, Roland Barthes nos oferece o perfil de um eu que não é psicológico, mas estrutural: “oferece à leitura um lugar de palavra, o lugar de alguém que fala em si mesmo, amorosamente, em face do outro (o objeto amado), que não fala”[i]. Dessa maneira, fragmentado, o sujeito amoroso se apresenta em face do múltiplo das possibilidades amorosas, que nos aparece como figuras do discurso. Essas figuras representam o amante em ação. Várias figuras compõe o discurso amoroso e nem todas se apresentam em uma relação amorosa, mas todas participam da relação amorosa, de modo que o ‘eu’ do amante pode nos aparecer de diversas maneiras na ação amorosa. Como exemplos dessas figuras temos abraço, adorável, angústia, carinho, carta, cena, chorar, coração, declaração, drama, encontro, escrever, espera, eu-te-amo, exílio, imagem, insuportável, magia, plenitude, por quê, saudoso, sedução, sozinho, união, verdade, entre tantas outras figuras possíveis dentro de um discurso amoroso. Essas figuras são modos de se exprimir do ‘eu’, e o seu modo de se exprimir não é claro, não tem ordem, apresenta-se sempre ao acaso e fragmentado.

A composição de um discurso amoroso depende de toda capacidade dramática do ‘eu’ enquanto amante. Em outras palavras, o ‘eu’ compõe um personagem só seu que terá como papel, na peça do amor, expressar o discurso amoroso. O que nós queremos enfatizar neste ensaio é que a composição das personagens são possibilidades de vida do ‘eu’ como um feixe temporal amplo que o permite ser muitos enquanto um. É nesse paradoxo da unidade-multiplicidade, tão conhecido da filosofia, que o ‘eu’ irá aparecer e se representar, e serão as vivências do amante que o permitirá compor sempre novos personagens amorosos, de modo que a vida se torna para ele um grande teatro móvel. As figuras fazem parte da estrutura do discurso amoroso e não possuem uma ordenação nem uma composição própria, elas são independentes do sujeito amoroso. Cabe ao ‘eu’ montar seu personagem a partir desse discurso fragmentado que se apresenta no teatro móvel da vida e, assim, suas experiências vão construindo o discurso utilizado pela personagem. Inicia Barthes:

A necessidade deste livro funda-se na consideração seguinte: o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação. Esta afirmação é em suma o tema do livro que ora começa[ii].

No entanto, e se ao invés de afirmações de um 'eu' perdido, usássemos todo o potencial dramático do ‘eu’ na composição perfeita da personagem? Quando se atinge o ápice e se reúne todas as peças do discurso amoroso na montagem da personagem perfeita é como dar vida a um verdadeiro Frankenstein: é belo, porém aterrorizante...
Se analisarmos o título da obra de Mary Shelley se conseguirá entender o que queremos dizer aqui. Chama-se Frankenstein ou o Prometeu Moderno. O que podemos compreender por um ‘Prometeu Moderno’? Voltando-se ao mito grego de Prometeu contado no Protágoras de Platão, veremos que Zeus teria designado aos titãs Prometeu e a Epimeteu que estes dessem a todos os seres as qualidades necessárias para a sua sobrevivência. Epimeteu ficou incumbido de distribuir as qualidades e Prometeu de verificar a distribuição feita pelo irmão. Concluída a tarefa de Epimeteu, Prometeu percebeu que de todos os seres apenas um havia sido esquecido por Epimeteu: o homem. Já sem qualidades para serem distribuídas, o homem nasceria fraco e sem nenhuma capacidade para sobreviver no mundo. Para resolver isso e assegurar a salvação do homem, Prometeu resolveu roubar de Hefesto e de Atena a sabedoria das artes juntamente com o fogo, pois, sem o fogo, além de inúteis as artes, seria impossível o seu aprendizado, e, assim, os deu aos homens. Dessa forma, os homens tiveram a capacidade de se desenvolverem e se tornarem fortes o suficiente para sobreviverem no mundo. Por esse feito, Prometeu teria sido punido por Zeus, sendo pois acorrentado pelas poderosas correntes de Hefesto e teria como castigo o seu fígado comido todos os dias por um águia.
Ora, a obra Frankenstein trata do Dr. Frankenstein que conseguiu a partir de fragmentos de corpos mortos, reconstruir um corpo completo e lhe dar vida. Percebam como é a figura do Dr. Frankenstein que representa o papel do Prometeu Moderno roubando um segredo de Deus que é gerar a vida do nada. Ele roubou o fogo divino e foi amaldiçoado por isso, pois a criatura agora viva era mais poderosa que o seu criador. Uma vez rejeitada, a criatura jura se vingar e perseguir seu mestre até o fim dos tempos. Ou seja, o Dr. Frankenstein reuniu todos os fragmentos necessários para gerar a mais perfeita criatura e lhe dar vida, mas, uma vez criada, ela não poderia ser por ele destruída e passa a ser um monstro que o atormenta e o aterroriza por toda a vida.
Da mesma maneira é a construção da personagem perfeita. O ‘eu’ reúne todos os fragmentos necessários para lhe dar vida e com isso se congratula, no entanto, o que, de fato, se cria é um Frankenstein amoroso, criatura poderosa e que perdurará por toda a vida de seu criador atormentando-o e perseguindo enquanto assim viver. Já nos diz Barthes que “a história de amor (a aventura) é o tributo que o amante deve pagar ao mundo para reconciliar-se com ele”[iii], no entanto, o discurso (o solilóquio) não tem uma linearidade, “ordenar-se, caminhar, concorrer para um fim (para um estabelecimento): não há [figuras] primeiras nem últimas”[iv]. Não há no Frankenstein a formação de uma história senão o trabalho absoluto do acaso em gerar pelas figuras algo diferente e perturbador, “pois não devemos, diz um matemático, subestimar o poder do acaso para engendrar monstros; o monstro em questão seria, emergindo de uma certa ordem das figuras, uma ‘filosofia do amor’, ali onde se deve esperar apenas a sua afirmação”[v].
Tudo que esta criatura terrível quer (esse monstro perfeito criado pelo poder do ‘eu’) é ser amada. Mas como isso lhe é negado, passa a atormentar seu criador até, por fim, consumi-lo por inteiro.





[i] BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso. São Paulo: Marins Fontes, 2003, p. xvii.
[ii] Ibid., p. xvi.
[iii] Ibid., p. xxii.
[iv] Ibid., p. xxiii.
[v]Ibid, p. xxiii.

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